História

*É preciso que antes de enfocarmos a pré-história catarinense, incluindo neste contexto a nossa região, façamos um esclarecimento sobre o que é Pré-História, uma vez que o termo pode designar tanto um período da história da humanidade (anterior a história baseada em textos), como também uma ciência que busca o conhecimento do passado do homem, onde cessa a história registrada. História e pré-história completam a reconstrução do desenvolvimento humano, diferem quanto à época, as fontes documentais, bem como, os métodos de reconstrução adotados[...]

A pré-história catarinense, a exemplo da brasileira, divide-se em dois períodos: o pré-cerâmico, e o cerâmico. O primeiro é o mais longo, e sobre ele poucos estudos foram realizados. Teria começado teoricamente com a entrada do homem no atual território catarinense, o que aconteceu, presumivelmente, 10 mil anos atrás. As tradições pré-ceramistas não mostram, pelos estudos até agora efetuados, qualquer relacionamento entre si, aparentando serem grupos completamente isolados. As principais culturas deste período são: Alto Paranaense (a mais antiga, conhecida inclusive, em nível de Brasil, mostra ter tido ampla área de dispersão, em Santa Catarina está localizada no vale do rio Uruguai e no oeste dos estado onde são encontrados sitos arqueológicos), destacam-se também deste período as tradições Pontas de Flecha e os Sambaquis.


As características principais do período cerâmico são a adoção de uma técnica mais avançada na fabricação de artefatos, a prática da agricultura, embora de forma muito rudimentar, e a invenção ou introdução da cerâmica. Este é considerado um período recente, entre 800 e 1700 desta era.
Os povos ceramistas correspondiam já aos indígenas que existiam na época em que a frota de Cabral aportou no litoral brasileiro. O território que posteriormente viria a formar o estado de Santa Catarina era na ocasião habitado pelos Tupi-Guarani também conhecidos como carijós; eram grupos sedentários, viviam próximo ao litoral, praticavam a agricultura e eram pescadores; Os Gês a cujo tronco lingüístico pertencem os Xockleng e os Kaigang. Os primeiros eram nômades, viviam nas florestas em constantes andanças em busca de caça e pesca. Os Kaigang habitavam o planalto, eram semi-nômades,  praticavam a agricultura, sua alimentação incluía também o pinhão e a caça, abundantes em toda a região. [...]


No processo de desenvolvimento gradual do ser humano ocorrido lentamente, ao longo dos milênios, é provável que o nosso homem primitivo tenha dado lugar aos grupos ceramistas que habitaram nesta região no período entre 2000 e 800 AC. Não existem, no entanto elementos suficientes que provem ter a fase pré-ceramista evoluído passando para um estágio posterior, como era de se esperar, dentro da ordem natural da evolução ou, simplesmente, desaparecido dando espaço para uma nova civilização. [...]


Este povo ceramista formou, segundo critérios já definidos a importante nação Guarani e dominavam todo o território conforme atestam registros feitos na época do descobrimento do Brasil, quando o litoral de Santa Catarina era habitado pelos Carijós, identificados como do complexo Guarani; entre a região litorânea e as terras que formam o planalto, na imensidão das florestas que cobriam os vales e as serras viviam os Xokleng; no planalto, na zona oeste os campos ali existentes eram dominados pelos Kaigang.


Dentro da classificação lingüística dos indígenas brasileiros os Carijós estão incluídos no grupo Tupi-Guarani enquanto que os Kaigang e Xockleng pertencem ao grupo Gê. Mesmo sabendo que foram poucas as incursões feitas no interior pelos conquistadores brancos, nas primeiras décadas subsequentes ao descobrimento do Brasil, como também inexpressivos os registros deixados por estas expedições que na época adentraram os sertões, se pode afirmar que as três populações tribais acima citadas, viviam em nosso estado quando da chegada dos portugueses. [...] (*SCAPIN, Alzira. Videira nos caminhos de sua história. Vol. 1, Graf. Equiplan, Videira SC )

            
Assim como índios de outras tribos brasileiras, esses índios foram chamados mais tarde pelos portugueses de "índios botocudos", uma vez que a maior parte dos índios brasileiros usava o "Botoque" ou "Batoque", um ornamento feito em madeira, de forma arredondada, que é introduzido nas orelhas (botoque auricular) e no lábio inferior (botoque labial), nascendo daí o termo "índio botocudo". No entanto, o termo "índio botocudo" é uma denominação muito genérica, pois, como dito, os portugueses generalizaram o termo, chamando de "botocudos" índios de várias partes do Brasil e até de outras tribos do mundo, portanto a designação mais correta para os índios que habitavam a região onde hoje está Santa Cecília é Kaigang e Xokleng.
A denominação "Kaigang" define genericamente e ao mesmo tempo, a população e o nome da língua por ela falada. Na bibliografia arqueológica, eles são conhecidos como "Tradição Casa de Pedra" e "Tradição Itararé". Embora exista volumosa bibliografia e inumeráveis conjuntos de documentos não publicados sobre os Kaigang, ainda se conhece pouco sobre os seus ascendentes pré-históricos.

 

Família da tribo  Kaigang, já influenciada pela cultura branca.

 

Os Kaigang ocupavam tanto aldeias a céu aberto quanto aldeias formadas por casas semi-subterrâneas nas regiões mais altas e com baixas temperaturas médias. Essas casas eram escavadas no solo, de modo a ter o formato de uma seção de um cone, e sua cobertura, uma estrutura de madeira coberta com uma camada impermeabilizante de argila sobre palha, teria a forma aproximada de uma semi-esfera. Vista da superfície do terreno, essas casas pareceriam com um montículo, provavelmente cobertas de vegetação rasteira. As casas poderiam alcançar diâmetros de até 22 metros e até 11 metros de profundidade. A quantidade dessas casas é variável e algumas aldeias chegaram a ter até 67 casas.


Os Kaigang possivelmente abandonaram as casas semi-subterrâneas devido à perda de seus territórios durante as guerras tribais contra os Guaranis e nas guerras de conquista travadas com os brancos. As aldeias eram instaladas em áreas de floresta ou nas margens dos campos naturais. Além, de realizarem explorações intensas de pinhão, que era considerado a base de sua dieta, também praticavam a agricultura em clareiras dentro da mata. Sua cultura material também era composta predominantemente por objetos perecíveis e, se comparamos aos Guaranis, houve bem menos estudos e poucas coisas são conhecidas. O mesmo ocorre com a cerâmica, porém os primeiros estudos já mostram que ela era utilizada basicamente para preparar alimentos. Suas ferramentas de pedra tinham funções similares às dos Guaranis.


A denominação "Xokleng" também defina genericamente e ao mesmo tempo, a população e o nome da língua por eles falada. Na bibliografia arqueológica, eles são conhecidos como "tradição Itararé". Assim como o Kaigang, apesar da volumosa bibliografia e de inumeráveis conjuntos de documentos não publicados a seu respeito, ainda se conhece pouco sobre os seus ascendentes pré-históricos. Através dos dados divulgados na bibliografia arqueológica, os ascendentes dos Xokleng devem ter sido empurrados para fora do lado oeste da região sul do Brasil, no sentido do litoral dessa região, na época da chegada e das primeiras expansões Guarani, por volta do ano zero. Nos registros históricos, os Xokleng só foram encontrados já nas áreas próximas do litoral sul-brasileiro.

 

Guerreiros Xoklengs

 

Suas aldeias eram geralmente pequenas, no interior das florestas, abrigando habitantes pouco numerosos. Também ocupavam abrigos sobre rochas e casas semi-subterrâneas. Fabricavam vasilhas cerâmicas semelhantes as dos Kaigang. Devido as pesquisas pouco sistemáticas realizadas até o presente, é problemático definir as diferenças. Sua funcionalidade estaria também ligada ao preparo de alimentos. O que se tem de concreto é que essas tribos habitavam essa região, infelizmente maiores detalhes da sua cultura ainda foram pouco estudados e divulgados.

 

Formação

A formação da Região Serrana de Santa Catarina desenvolveu-se muito lentamente a partir do século XVII, como rota de tropeiros.
*A palavra "tropeiro" deriva de tropa, numa referência ao conjunto de homens que transportavam gado e mercadoria no Brasil colônia. O termo tem sido usado para designar principalmente o transporte de gado da região do Rio Grande do Sul até os mercados de Minas Gerais, posteriormente São Paulo e Rio de Janeiro, porém há quem use o termo em momentos anteriores da vida colonial, como no "ciclo do açúcar" entre os séculos XVI e XVII, quando várias regiões do interior nordestino se dedicaram a criação de animais para comercialização com os senhores de engenho.

 
Quando do início do período da mineração, a América era ainda dividida pelo Tratado de Tordesilhas, e, teoricamente, a região onde encontramos o atual estado do Rio Grande do Sul pertencia à Espanha. Não é à toa que nesta região as atividades econômicas se assemelham às da Argentina, Paraguai e Uruguai (na verdade, Vice Reino do Prata). Se por um lado as condições geográficas e climáticas estimularam essa atividade, por outro é necessário lembrar que a criação de gado na região platina se iniciou para abastecer as minas de prata do interior do Peru, tanto no sentido de transportar para o interior os produtos provenientes da Espanha, como no sentido inverso, trazer das minas a prata, que era embarcada em navios nos rios da Bacia do Prata e no porto de Buenos Aires.


Foi essa atividade dinâmica na Bacia do Prata que estimulou o governo português a intervir na região. Mesmo antes da assinatura do Tratado de Madri, em 1750, Portugal atuava no sentido de incorporar a região a seus domínios, interessado em participar do comércio local.
No entanto podemos dizer que, anteriormente, ao longo do século XVI e início do XVII, o Rio Grande do Sul era "terra de ninguém", habitada principalmente por índios guaranis e por onde passavam eventualmente alguns bandeirantes em busca de índios para apresar e escravizar.
Esse quadro foi modificado com a chegada de padres jesuítas que, no início do século XVII, na região formada pelos atuais estados do Rio Grande do Sul, e Paraná, e pela Argentina e Paraguai, fundaram as Missões jesuíticas (em Santa Catarina, também no século XVII, apesar de rota dos padres Jesuítas, predominaram os padres Franciscanos).

 

Pares Jesuítas catequizando os índios Guaranis

 

Nas missões jesuíticas se reuniam, em torno de pequenos grupos de religiosos, grandes levas de índios guaranis convertidos. O crescimento das missões determinou a introdução da atividade pecuarista, de forma extensiva, geralmente com o gado solto nas pradarias, com o objetivo de alimentar os índios. Dessa maneira a região passou a oferecer dois atrativos para os forasteiros: o índio que seria escravizado e o gado. Várias expedições de bandeirantes paulistas atacaram a região, destaca-se a expedição comandada por Antonio Raposo Tavares - até 1640.

 

 

Bandeirante Antonio Raposo Tavares

 

A ação dos bandeirantes e os conflitos fronteiriços entre Portugal e Espanha fizeram com que os jesuítas transferissem as reduções para a região noroeste do Rio Grande, onde fundaram os Sete Povos das Missões, que funcionavam de forma independente dos governos europeus metropolitanos e não se preocuparam em respeitar as decisões adotadas a partir de 1750. Essa situação motivou a repressão às Missões. Apesar da resistência por parte de padres e índios, as Missões foram desmanteladas, mas deixaram um legado que, por muito tempo, seria a base da economia gaúcha: os grandes rebanhos de bovinos e cavalos, criados soltos pelas pradarias. Dessa maneira pode-se afirmar que a influência espanhola se fez sentir no Rio Grande do Sul desde a sua formação. Pode-se mesmo falar que, sem a participação espanhola, a pecuária, que seria a base da economia gaúcha durante o século XIX e início do XX, não existiria com a importância que tem. Não poderia ser de outra forma, a final, o Rio Grande representou a principal zona de contato e conflito com os vizinhos espanhóis.

Nos Séculos XVII e XVIII, os tropeiros eram partes da vida da zona rural e cidades pequenas dentro do sul do Brasil. Vestidos como gaúchos com chapéus, ponchos, e botas, os tropeiros dirigiram rebanhos de gado e levaram bens por esta região para São Paulo, comercializados na feira de Sorocaba. De São Paulo, os animais e mercadorias foram para os estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.

 

 

Tropeiro

 

É difícil definir os homens que se dedicavam a esta atividade. Muitos homens de origem paulista, vicentina, ou seus descendentes, se tornaram tropeiros, assim como muitos homens de origem portuguesa. A necessidade de povoar a região, segundo interesses dos portugueses, fez com que o governo real facilitasse o acesso à terra e garantisse um elevado grau de liberdade e autonomia para a região, fato que teve como uma de suas conseqüências o predomínio da grande propriedade no século XVII, que beneficiava poucas famílias e marginalizava grande parte do sociedade que ali se formava.


No Rio Grande, a cidade de Viamão tornou-se um dos principais centros de comércio e formação de tropas que tinham como destino os mercados de São Paulo. Porém de outras regiões do sul partiam as tropas, quase sempre com o mesmo destino. Nesses trajetos, os tropeiros procuravam seguir o curso dos rios ou atravessar as áreas mais abertas, os "campos gerais" e mesmo conhecendo os caminhos mais seguros, o trajeto envolvia várias semanas. Ao final de cada dia era acesso o fogo, para depois construir uma tenda com os couros que serviam para cobrir a carga dos animais, reservando alguns para colocar no chão, onde dormiam envoltos em seu manto. Chamava-se "encosto" o pouso em pasto aberto e "rancho" quando já havia um abrigo construído. Ao longo do tempo os principais pousos se transformaram em povoações e vilas. É interessante notar que dezenas de cidades do interior na região sul do Brasil e mesmo em São Paulo, atribuem sua origem a atividade dos tropeiros. (* por Claudio Recco).


No início a relação entre os tropeiros e os indígenas foi bastante conturbada, pois os índios atacavam as tropas, o que gerou a necessidade de uma escolta para as tropas, com a função de combater os índios. Assim, os chamados  Bugreiros eram os responsáveis por capitanear esses grupos de combate aos índios mais violentos.

 

 

Capangas de Martin Bugreiro, a serviço do Fazendeiro Renato Goetten (destacado na foto), no início do séc. XX.
Toda essa mistura de tropeiros de gado, paulistas e gaúchos com os índios da região, originou o caboclo serrano.

 

 

Retrato do menino caboclo a mistura do índio com o branco.
Caboclo, do Tupi "Caá-boc", que tem cor acobreada, acobreado, mestiço. 
Mestiço, do Latim misticiu, de mixtu, misturado, indivíduo cujo os pais são, entre si, de raças diferentes

 

Nasce Lages


No século XVIII portugueses e espanhóis continuavam a cobiçar as terras sulinas. No ano de 1766, o governador da Capitania de São Paulo - antiga proprietária da região - incumbiu o bandeirante Antonio Correia Pinto de fundar um povoado na estrada das tropas.

 

 

Estatua de Antonio Correia Pinto em Lages-SC

 

A localidade devia servir como defesa contra a invasão dos castelhanos que cobiçavam as terras, ao mesmo tempo em que oferecia proteção aos tropeiros e viajantes que cruzavam o Planalto Serrano transportando gado do Rio Grande do Sul para São Paulo.

 

 

A fundação do povoado de Nossa Senhora dos Prazeres dos Campos das Lajes foi oficializada em 22 de novembro de 1766. Em maio de 1771, a povoação foi elevada à categoria de vila, permanecendo assim até 1820, quando foi desanexada de São Paulo e passou a fazer parte de Santa Catarina. O antigo nome só foi substituído por Lages em 1960.


Nasce Curitibanos


O bandeirante de Curitiba, preador de índios, Guilherme Dias Cortes, passou por essa região e em 1679 e elaborou uma carta geográfica onde dava nome aos lugares, e a um desses lugares denominou "os Coritibanos". Em 1727, o governador de São Paulo entregou o roteiro elaborado por Dias Cortes, ao sargento-Mor de cavalarias Francisco de Souza e Faria, para que ele abrisse uma estrada ligando o Sul a 5ª Comarca de Coritiba pertencente a São Paulo.
Souza e Faria, começou a estrada em Araranguá - SC em 11 de fevereiro de 1728. E em 1729, passou pelos Coritibanos, chegando a Coritiba em setembro de 1730, no dia de Nossa Senhora da Luz.


Entre 1733 e 1734, Cristóvão Pereira de Abreu e 130 tropeiros passou por Coritibanos com uma tropa 3.000 animais dos quais 800 eram seus. Ele fez uma correção no roteiro de Souza Faria, e dos Tijucas (Bom Jardim), atalhou por São Joaquim à parada dos Lagens (Lages), alcançando a picada de Souza Faria, um pouco além de Ponte Alta. A partir daí, milhares de bovino e muares passavam por Coritibanos e ali descansavam. O local passou a ser conhecido como "Pouso dos Coritibanos".

 
Em 1771,aproximadamente, inícia-se a povoação do local onde hoje é Santa Cecília, com a criação do posto de coletas de impostos no local, hoje denominado Coletoria Velha, local que também servia de pouso para os tropeiros, daí o primeiro nome do local, popularmente chamado de  Pousinho , que logo, devido à pequena aglomeração populacional naquele local passou-se a chamar  Povinho .


Em 1773, o capitão português Antonio Jose Pereira, da comitiva de Antonio Correa Pinto, veio com a família morar na região, fundando a "Fazenda dos Coritibanos", onde viveu ate 1779, quando faleceu. A fazenda foi vendida a João Xavier de Souza (também da comitiva de Correia Pinto) pela viúva Maria Thereza de Eyro. A "fazenda dos Coritibanos", localizava-se aproximadamente à Lagoinha próxima a Lagoa Grande. A fazenda foi abandonada em 1783, devido um ataque dos índios ocorrido em 17 de outubro de 1782. As cinco primeiras vítimas dos índios teriam sido sepultadas no cemitério do Lageado.

 

 

 

De Coritibanos além da estrada que vinha do Rio Grande do Sul rumo a Coritiba, outras variantes foram sendo abertas, por Lebon Regis, Caçador, Porto União, Ponta Grossa-PR, ate Sorocaba-SP. Para o litoral, Pouso Redondo, Rio do Sul, Blumenau, Itajaí, e a partir do término da estrada de ferro São Paulo - Rio Grande, em 1910 um ramal para Estação de Perdizes (Videira). Em 1807 a câmara de Coritiba aprovou a Lei que determinava a criação de vários povoados ao longo do caminho das tropas, um destes, nos Coritibanos. Em 1816, Atanagildo Pinto Martins, auxiliado pelo índio Jangong descobria o Passo do Pontão, no Rio Uruguai (hoje entre Campos Novos- SC e Barracão- RS, essa estrada tinha um ramal para Palmas-PR e outra para Coritibanos, ficou conhecida como "Vereda das Missões"). Em 1829, o capitão José Ferreira Bueno fez um oficio para a câmara Municipal de Lajes pedindo um padre para catequizar alguns índios no "Novo povoado dos Coritibanos".


Em 1839 ali chegam os Farroupilhas, quando se deu o histórico combate da Costa do Rio Marombas, entre os Republicanos Farroupilhas e as Forças Imperiais (veja mais na pagina de links, o link "Resumo Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos"). Na mesma época no interior do povoado de Coritibanos, no local chamado de Povinho (atual Santa Cecília) começam a chegar imigrantes europeus. Em 1851, os quarteirões de Coritibanos e Campos Novos, passam a Distrito com o nome "Distrito de Coritibanos e Campos Novos Reunidos" cuja sede distrital era Campos Novos. Em de marco de 1864, pela Lei Provincial N° 535, Coritibanos recebe o titulo de "Freguesia de Nossa Senhora da Conceição dos Coritibanos", passando a sede distrital.

Em 11 de junho de 1869, pela Lei Provincial 626, Curitibanos-SC passa a ser município, desmembrado de Lages-SC.

Europeus

 
Nas margens do rio Correntes, esses tropeiros vindos do Rio Grande do Sul em demanda para o Paraná e São Paulo, faziam ponto de pouso, já desde os idos de 1771 quando foi criado o posto de coleta de impostos na área que hoje é conhecida como Coletoria do Rio Correntes ou atual Coletoria Velha.
A localidade denominada de "Pousinho" e depois  "Povinho", também conhecida por "Corisco" percebia-se entre o caminho das tropas de gado traçada por esses antigos tropeiros, sendo ainda composta basicamente por índios remanescentes, e caboclos oriundos já do sangue branco dos tropeiros.
No século XIX, a chegada dos europeus e a sua mistura com os caboclos da região deram origem a uma sociedade baseada no latifúndio, no apadrinhamento e na violência, donde também denota-se todo o costume do fazendeiro gaúcho que influenciou e influencia na cultura da região até os dias atuais.


Com a chegada dos europeus é que se pode dizer que de fato surge a primeira concentração populacional no "Corisco", ainda pertencente a Curitibanos. Do povoamento da localidade, pelos imigrantes europeus, há registros de que tenha ocorrido entre os anos de 1829 à 1855, quando algumas famílias oriundas de Rio Negro (PR), instalaram-se junto as margens do Rio Correntes, cerca de dois quilômetros a Oeste de onde hoje se localiza a cidade de Santa Cecília. Estas famílias dentre as quais encontram-se os Arbegaus, Goetten, Granemann, Grein, Hau, Rauen, Ruth, e mais tarde, os Drissen, foram aqui instaladas pelo capitão José Ferreira de Souza, que recebera do governo imperial por volta de 1830, uma Sesmaria de terras (lotes de terra), abrangendo a região compreendida entre o rio das Pedras até o rio Tamanduá.


A história da colonização européia de Santa Cecília começa um pouco mais longe e a mais tempo do que se imagina, na Alemanha, mais especificamente na cidade de Trier, na então província Renana do Reinado da Prussia, hoje fazendo parte do estado federado de Rheinland-Pfalz, na Alemanha, à margem direita do rio Mosela, principal afluente do Reno, e que deve seu nome aos Tréviros povo galo-celta que lá habitava, e que foi conquistada pelos romanos no ano 16 A.C., domínio que perdurou por quase cinco séculos, onde fundaram a vila então chamada de "Villa Romana Augusta Treverorum", que hoje é a cidade de Trier, a mais antiga da Alemanha. Nessa cidade, ou nasceram, ou de lá partiram todos os imigrantes que vieram para o Brasil e colonizaram a região onde hoje está Santa Cecília.

 

 
Cidade de Trier, estado de Rheinland - Pfalz, no oeste da Alemanha, berço dos imigrantes alemães que vieram para a região onde hoje está Santa Cecília junto com outros que ajudaram a colonizar outras cidades do sul do Brasil.

 

Abandonar seus países, suas raízes, e seus costumes para viajar rumo a um futuro incerto do outro lado do Oceano não deve ser uma decisão fácil, e muito menos sobreviver à nova aventura. Os imigrantes deixam sua pátria por não ter mais condições de poder viver dignamente no país de origem, fazendo assim vislumbrarem no novo mundo condições melhores para si e para suas famílias. Ao desembarcar na nova terra, o ambiente era totalmente diferente, o clima, as pessoas, a língua, os hábitos, tudo. No entanto, a eterna e incansável busca pela sobrevivência não os fez desistir. Com muito esforço, trabalho e dificuldades, os imigrantes ajudariam a constituir um novo Brasil, passando a influenciar de maneira decisiva na cultura do país.


RELAÇÃO DE COLONOS EMIGRADOS DE TRIER-ALEMANHA, E DE OUTRAS CIDADES EUROPÉIAS, PARA RIO NEGRO-PR, COM ESCALAS NO RIO DE JANEIRO-RJ E SANTOS-SP:

Houve duas remessas de colonos alemães de Trier para Rio Negro-PR. Na segunda leva foram 31 famílias, composta de 142 pessoas, que chegaram em novembro do mesmo ano (1829).

Destacamos os nomes das famílias que mais influenciaram história ceciliense.

PRIMEIRA LEVA:

CARLOS FROMER, sua esposa Amelia e filhos: Carlos, Crhistina,Guilhermina, Dorothéia e Augusta. (Forjaz diz, que este colono ficou em Paranaguá, onde comprou um sitio do vigário).
CARLOS CARSTEN, sua esposa Gertrudes e filhos: Bárbara, CarlosJosé e Felippe.
LEONARDO SCHULTZ, sua esposa Suzana e filhos: Eva, Francisco,Margarida e sua sogra Eva Mores.
JOÃO JOSÉ SALCBOTE, sua esposa Dorothéa e filhos João, Gustavo e Leal.
HENRIQUE GRANEMANN, sua esposa Maria Alberta e filhos: Izabel,Albertho e sua sogra Maria Rolfe.
PEDRO GREIN, sua esposa Angela e filhos: Anna, Mathias, JoãoMargarida e seu criado Mathias Schuler.
JOÃO STRESSER, sua esposa Suzana e filhos: Suzana, Thereza, Pedro,Margarida e Theodoro.
NICOLAU SCHEID, sua esposa Gertrudes e filhos: Nicolau e Anna.
ADÃO KUSS, sua esposa Anna e filhos: Mathias e Suzana.
JOÃO FOIS, sua esposa Maria e seu parente João Hermano Hack.
WALTER KETTER, viúvo e filhos: Anna, Clara, Maria, Catharina e Mathias.
NICOLAU DE SCHAF, e filhas: Anna, Magdalena.
JOÃO RAUEN, sua esposa Maria Joanna e filhos Mathias e Bárbara.
MARTINHO CARLIN, sua esposa Suzana e filhos: Anna, Theresa,João e José Pedro.
JOÃO ADÃO LENTZ, sua esposa Gertrudes e filho Gaspar e seu sogroPedro José Frittzem.
PEDRO ROTH (  Rutes - que não chegou ao Rio Negro, por ter falecido em Rio de Janeiro a 22 de setembro de 1828) e sua esposa Anna Barbara e filhos: José, Nicolau, Carlos José, Anna e Gertrudes, Bárbara, Pedro João Baptista.
PEDRO SCHELEDER, sua esposa Luiza Bárbara e filhos: Miguel, João, Carlos e Catharina.
JOÃO ADÃO BECKER, sua esposa Anna Maria e filhos: João e Jorge.
NICOLAU BECKER, sua esposa e filhos: Bárbara Catharina, Bernardo,Nicolau e seu sogro Miguel Pinter e sua cunhada Catharina Pinter.
NICOLAU BLEY e sua mãe Margarida Eicher.

SEGUNDA LEVA:

ADÃO DIDRICHE, sua esposa Maria e filhos: Maria, Catharina, Henrique,João e Adão.
FRANCISCO KRAUS, sua esposa Izabel e filha Catharina. (Tiroupassaportes em Bremen, a 1° de janeiro de 1828).
JOSÉ VALERIUS, sua esposa Catharina e filhos Guilherme,Magdalenae sua sogra Catharina Becker.
MATHIAS PETERS, com sua esposa Margarida Becker e filhos Jacob eJoanna Magdalena. (Tirou passaportes em Bremen, a 1 de junho1828, visando-os no Consulado do Rio de Janeiro, em 30.09.1828).
PEDRO PEDRO ACKE, sua esposa Izabel e seu cunhado João Petters.
MATHIAS ACKE, sua esposa Anna e filhos: Anna, Catharina, AnnaMaria, Nicolau e Margarida.
JOÃO THIBES, sua esposa Catharina e filhos: Catharina, Margarida,Jacob e Leonardo.
JOÃO PLETZ, sua esposa Margarida e filhos: Felippe e Maria.
MARIA CATHARINA LUDOVIK, viúva de Matias Arbegaus e filhos:Nicolau, Apolônia e Felippe e seu parente Nicolau Pixius.
FREDERICO STOCKSCHNEIDER, sua esposa Anna e seu parenteLourenço Ruhr.
FELIPPE MÜLLER, sua esposa Margarida e filhos: Anna, Maria, Helena,Miguel, João, Mathias Felippe, Catharina e seus parentes MathiasPixius e Felippe Rauen.
JOÃO RICARDO NOMMER, sua esposa Maria Anna e filho: João e seusparentes Leonardo Losquil e Pedro Scherer.
MIGUEL SCHEMITZ, com suas filhas: Catharina, Margarida, Helena eAnna Maria.
HENRIQUE BARLING, sua esposa Anna e filhos: Apolonia, Eva, Angélica,Anna Catharina e Mathias.
JOÃO HORT, sua esposa Catharina e seus enteados: Mathias, Eva Haue filhos Anna, Maria, Catharina e Dr.Ferdinando Wisback, médico.
LUIZ WELLENS, sua esposa Barbara e filho: Nicolau.
ADÃO FERBOT, e filhos: Frederico, Margarida.
JOÃO QUESSEN.
JOÃO SANDT, sua esposa Margarida e filhas: Anna, Margarida eCatharina.
MATHIAS SCHUCK, sua esposa Eva e filhos: Anna Maria, Pedro. (Tiroupassaporte em Bremen a 21 de abril de 1828, visando noConsulado Alemão, no Rio de Janeiro em 30.09.1828).
PEDRO SCHUCK e sua mãe Anna Maria.
BÁRBARA FEFFEL, e filhos: Mathias e André, e seus irmãos MathiasSchimitz e João Pedro.
ADÃO KUHN, sua esposa Catharina e seu criado Jacob Emmerick.
MATHIAS JUNGLES, sua esposa Anna Maria e filhos: Nicolau, Eva eDaniel.
JOÃO GEBERT, e filhos: Izabel, João e Nicolau e seu criado Mathias.
MATHIAS GUETHEN, sua esposa Catharina e seu filho Adão Goetten.) (Um monumento existe em Rio Negro, PR, onde entre os fundadores da cidade aparece Mathias Guetten, cujo nome verdadeiro, na Alemanha, era Mathias Kretten ( também grafado Groetten, num documento para a entrada no Brasil ) e que de fato era padrasto de Adão Goetten. O nome GOETTEN, no entanto provém da mãe de Adão, Catharina Goetten, que teve o filho Adão como solteira).
HENRIQUE KRANTZ, sua esposa Barbara e filhos: Pedro, Anna,Maria, Tereza e André.
JOÃO MIGUEL SAUER,sua esposa Catharina e filhos: Cristina, Pedro,Maria, Eva e João.
FRANCISCO WEBER, sua esposa Anna Catharina e filhos: Anna, Maria e Margarida.
GUILHERME LAMPEAS, sem família.
NICOLAU ENDERS, sem família.

Forjaz diz, que tais famílias saíram de Santos em 23 de maio de 1829 nas lanchas "Amália e Providência" de propriedade do negociante Domingos José da Silva, chegando a Paranaguá a 28 do mesmo mês, depois seguiram para Morretes, Curitiba e chegando a Rio Negro/PR, seu destino, em novembro de 1829, lá se estabelecendo pelas mãos do Barão de Antonina tornando-se a primeira colônia alemã do Paraná.

Não existem dados concretos sobre a data exata de saída de Rio Negro no Paraná e nem de chegada desses imigrantes na localidade de Povinho (atual Santa Cecília), assim como existem confusões históricas entre a data de chegada de algumas famílias ao Brasil, e sua chegada em Santa Cecília, mas existem hipóteses, e alguns documentos que indicam que o primeiro imigrante a chegar nestas terras foi Adam Gueten, que, já no Brasil, teve a grafia de seu sobrenome alterada para Adam Götten, e depois Adão Goetten.

 

 
Antigos carroções utilizados pela família Goetten já na serra catarinense

 

Há livros de história de Santa Catarina que dão conta que Adão Goetten teria chegado onde hoje é Santa Cecília ainda no ano em que veio para o Brasil, 1829,  portanto quase 20 anos antes das demais famílias, que segundo dados históricos só teriam aqui chegado em 1855, no entanto existem informações divergentes quanto à data, e considerando que, em 1829 Adão contava com apenas 15 anos de idade, podemos concluir que Adão recebeu sua cota de terras do Capitão José Ferreira de Souza, entre os anos de 1829 e 1840, quando foi instruído a viajar para o sul e instalar-se na região compreendida entre o Rio das Pedras e o Rio Tamanduá, subindo a Serra Geral (do Espigão).


Além do fato de ter nascido em Trier, na Alemanha, no ano de 1814, e morrido em Curitibanos, em 31 de dezembro de 1889, deixando onze filhos, pouco mais se sabe sobre Adão Goetten, no entanto um importante documento ajuda a traçar o perfil de Adão. Um trecho do livro "Blumenau Einst" (Blumenau Outrora), onde Theo Kleine relata anotações de seu tio Karl Kleine, sobre uma visita à casa de Adão, por volta de 1875, quando Karl acompanhou o engenheiro Emil Odebrecht na abertura do picadão que ligou as localidades de Curitibanos e Blumenau, estrada que também serviu, depois, como caminho de tropeiros.

Segue o relato:

...a jornada continua, atravessando campos, capoeiras, e banhados, sempre em direção à Curitibanos. A vida aqui apresenta mais variações do que na floresta fechada, de vez em quando tropeiros e moradores do campo nos visitam e nos acompanham por longos trechos. Na estrada de Curitibanos morava nesta época um velho alemão, de nome Adam Götten. Ele veio há muitos anos da zona do Reno, (região do rio Reno, onde está a cidade de Trier, terra natal de Adão) fixando-se neste sertão, em meio a brasileiros, conservando porem a língua materna. O velho Adão, como era conhecido entre os moradores dos campos, estava muito bem instalado, tinha família numerosa, que porem, excetuando sua mulher, desprezava a língua alemã, estando já completamente abrasileirados. Nas dependências desse Adão nós nos alojamos por algum tempo. Ele nos recebeu cordialmente e lá vivemos como "Deus na França".

O velho Adão porem tinha seus caprichos e podia tornar-se bem agressivo e nós blumenauenses logo recebemos boa prova disso. Quando nos aproximamos com nossas tralhas ele disse para sua mulher, "Olha lá Bärbele (nome familiar, íntimo e carinhoso de Bárbara Roth) aí estão vindo os Farroupilhas de Blumenau. Olhe, são macacos, ursos ou elefante" hahaha (boa risada). "O que vocês farroupilhas querem do velho Adão?" Nós ficamos surpresos com essa recepção, e alguns da turma já queriam dar meia volta. A Bärbel porem nos explicou que o seu velho Adão não era tão grosseiro como gostava de se apresentar. Com isso nos encorajamos, cumprimentamos e seguimos em fila indiana até o rancho que nos fora indicado como pousada. O velho e sua mulher nos seguiram e durante algum tempo ficaram observando como nós nos arranjamos. O velho dirigiu-se à sua mulher: "Bärbel depois prepare um jantar para esta gente ouviu?" e dirigindo-se a nós - "Quando terminarem de comer, devem cantar umas velhas canções para que eu possa acompanha-los" e com isso já iniciou o canto "Nebulion, Nebulion, companheiro sapateiro"cantou, ou melhor, berrou a canção todae para nosso horror já estava reiniciando a mesma, quando sua Bärbel o impediu - "Ora essa, deixe essa gente em paz". Ele porém não gostou, passando-lhe uma descompostura. Os dois desapareceram na casa, e nós seguimos depois de algum tempo e nos foi servido um ótimo jantar.

Depois de comer, fomos obrigados a acompanhar o velho Adão, já bastante eufórico em suas velhas canções. Ele era incansável no seu berreiro, obrigando-nos à acompanhá-lo até estar completamente roucos. Caso continuasse assim diariamente, acabaria conosco em pouco tempo. Para sorte nossa a Bärbel conseguiu evitar esta prova de força diária. O velho Adão, apesar de suas esquisitices tinha a melhor casa, o melhor gado e o mais bonito pomar e jardim. Em toda a redondeza não se encontrava uma fazenda melhor e o velho Adão era sobremaneira hospitaleiro, dando de mãos cheias, compensando plenamente seus caprichos. Somente quando tinha bebido demasiado, tornava-se agressivo, arranjando assim muitos inimigos. Mas como tudo tem um fim, assim também para nós a estada na casa tão hospitaleira do velho Adão terminou com a ordem de seguir até Curitibanos. Sob a condução do velho Basil seguimos tristes nosso caminho. O engenheiro Emílio Odebrecht e meu irmão Theodor deveria, nos seguir. (*por Osni Goetten).


Logo depois de Adão Goetten, vieram outras famílias, Arbegaus, Granemann, Grein, Hau, Rauen, Drissen, entre outros, que se mesclaram aos caboclos que habitavam o lugar, fizeram fazendas, plantaram e desenvolveram-se. Essa chegada dos colonizadores europeus fez nascer a primeira concentração populacional considerável na localidade denominada de "Povinho", ainda pertencente ao povoado de Coritibanos, quando começam as nascer as primeiras fazendas, que seriam o berço da civilização ceciliense. Foi nesse período que também começam a passar pela localidade os primeiros professores volantes, que educavam precariamente os filhos dos primeiros fazendeiros da localidade de "Povinho" ou "Corisco", nome sempre utilizado, informalmente no lugar, devido à alta incidência de relâmpagos e raios em sua área. "Corisco" também é referência à Serra do Corisco que vai de Santa Cecília para Rio do Campo e Taió.


Logo, aquele grupo de famílias colonizadoras formou o lugarejo chamado "Povinho" ou "Corisco", que foi elevado à categoria de freguesia (Povoação) pela Lei Providencial número 713 de 22 de abril de 1874, com o nome de  Rio Correntes . Mas o nome "Corisco" ainda foi utilizado, informalmente até os anos 1930.

 

 
Foto da família Granemann no fim do séc. XIX. Detalhe para o garoto sentado, vestindo branco e com as mãos sobre os joelhos; Trata-se de Antonio Granemann de Souza, nomeado primeiro prefeito de Santa Cecília.

 

Santa Cecília do Rio Correntes


Um dos maiores símbolos de castidade e fé cristã, Cecília foi uma moça italiana muito rica, que foi perseguida por ser cristã, e ter o talento musical, o que em sua época, ano 200, era um ultraje, pois o cristianismo ainda era descriminado, e expressões artísticas só eram permitidas aos homens, resultando na punição com flagelo e morte de Cecília, a quem, posteriormente, foram atribuídos inúmeros milagres.

 

 

 

Era nobre e cristã, e tinha feito voto de virgindade, quando seu pai a casou com Valeriano. De acordo com os costumes do tempo, não era necessário o consentimento da noiva para o casamento, e o pai de Cecília a casou sem tê-la antes consultado. Ela declarou ao marido sua condição de cristã e de virgem consagrada a Deus, e conseguiu convertê-lo, assim como ao cunhado, de nome Tibúrcio, sofrendo os chamados três gloriosos martírios por amor a Jesus Cristo.

Cecília, cujo corpo foi reencontrado no século IX, é invocada como padroeira da música e do canto, porque de acordo com antiga tradição ela cantou, para Valeriano, a beleza da castidade, e o fez de modo tão eficaz que ele se determinou a respeitar na esposa o voto que ela fizera. Cecília foi das mais veneradas desde tempos imemoriais, e teve seu nome incluído no Cânon da Missa.

Segundo costumes católicos, ela tem a glória de se ter assemelhado a Maria num ponto: ambas foram casadas e permaneceram virgens. Ao narrar o episódio de seu casamento, os registros de Santa Cecília, que datam de 500 d.C., contêm a seguinte passagem: "Durante o banquete de seu casamento, enquanto se ouvia música, ela fazia suas orações na solidão de seu coração, pedindo que seu corpo fosse mantido imaculado". No papado de Urbano I foi tornada santa, padroeira dos músicos e ainda hoje é a santa que tem maior número de paróquias no mundo. A comunidade européia, trouxe consigo a fé nesta santa.

Reza uma lenda que no "Corisco", havia uma capela com a imagem original da santa, trazida de Rio Negro-PR pelos imigrantes alemães, e que esta foi atingida por um raio, destruindo-a completamente, só restando intacta a imagem da santa. Outra lenda reza que no principal rio que corta a freguesia de "Corisco", um padre jesuíta teria jogado uma caixa ou um baú de ouro envolto em correntes, e que o tal baú nunca mais teria sido encontrado, mesmo após inúmeras tentativas. "Outra versão relata que entre 1875 e 1891, aconteceu nessas terras a chegada da primeira imagem de Santa Cecília,que fora encomendada por uma senhora, para o túmulo de suas duas filhas, mortas pelos índios presentes no Campo Alto.Tempos depois, esta estatua teria sumido do cemitério. Independentemente às versões, a fé do povo na santa e a idéia da adoção como sua padroeira já estava presente."

Em referência ao Rio Correntes, nome dado em alusão as correntes que envolviam o baú de ouro da lenda, e à Santa Cecília, pelo decreto número 49 de 24 de fevereiro de 1891 a freguesia de "Rio Correntes" foi transformada em Distrito de Paz, com a denominação de "Santa Cecília do Rio Correntes".

 

 

Primeira capela Católica de Santa Cecília no fim do séc. XIX

 

Mesmo com o novo nome oficial de Santa Cecília do Rio Correntes, a denominação "Corisco" permaneceu em uso até os anos 1930, tanto que ainda podia se encontrar esta denominação em alguns mapas, já no período da Guerra do Contestado.  

 

 

Família de Miguel Granemann de Souza (de barba)- 1895.

 

O Contestado


No fim do século XIX, após a Proclamação da República, em 1889, com a maior autonomia dos estados, desenvolveu-se o coronelismo, cada cidade possuía seu chefe local, grande proprietário, que utilizava-se de jagunços e agregados para manter e ampliar seus "currais eleitorais", influenciando a vida política estadual. Havia ainda as disputas entre os coronéis, envolvendo as disputas por terras ou pelo controle político no estado.

 

 

Grupo de sertanejos da Guerra do Contestado.

 

A região onde hoje se encontra Santa Cecília foi uma das que sofreram com a Guerra do Contestado, de 1912 a 1916, especialmente no período final do conflito, a chamada  fase do banditismo . A extração de madeira, que movia a economia local na época da colonização, é até hoje o principal filão econômico do município. Em 1914, o Distrito Santa Cecília do Rio Correntes, pertencente à Curitibanos foi atacado numa invasão à Fazenda de João Goetten Sobrinho, ali localizada. Muitos dos antigos moradores relatam que o conflito foi bastante violento, e que um clima de tensão se estabeleceu.
A operação consistia em apropriar-se do gado e utilizá-lo na alimentação quase exclusiva dos guerrilheiros e suas famílias. Cavalos, mulas e burros eram vítimas do arrebanhamento, já que serviam de "veículo de guerra" utilizado no deslocamento dos sertanejos em suas operações fora dos redutos.

*Os assaltos às fazendas para o arrebanhamento e para a coleta eram planejados com cuidado e nem faltavam ordens por escrito do chefe.
O piquete jagunço, comandando por Francisco Maria Camargo, encarregado do assalto à enorme propriedade do colono teuto-brasileiro João Goetten Sobrinho, trazia um plano de ataque assinado pelo comandante geral Francisco Alonso de Souza:"Eu vos dou ordens e Deus, São João e São José Maria vos darão o poder e a força para ir. É preciso trazer tudo o que encontrar na casa, menos dinheiro, e respeitar as famílias. Vocês devem convidar os homens que estiverem fora a nos acompanhar. Quem for descoberto como peludo terá que morrer sem perdão. As casas devem ser queimadas, ficando uma para acomodar as famílias".

Eram "peludos", os moradores da região que não faziam causa-comum com os fanáticos e que depois eram vistos como aliados das tropas legais, batendo-se a seu lado ou guiando-as nas estradas, dentro dos campos ou do mataredo. Para esse caso, a pena aplicada era sumária: o "refrescamento", ou seja, a degola. *(http://www.transrodace.com.br/contestado/capitulo8.asp). Essa ordem de ataque, aqui citada, confirmou-se, no entanto, João Goetten Sobrinho, inclusive com o apoio bélico do exército, reuniu um piquete e liderou a reação ao ataque, que resultou na derrota dos sertanejos. Desse ataque, pouca informação foi registrada, apenas relatos de moradores antigos dessa região, no entanto, trata-se de importante episódio de nossa história. Pois sem a coragem das famílias que se reuniram para essa reação, não se sabe qual a atitude dos sertanejos, e certamente nosso desenvolvimento teria outro destino.

É importante também, destacar, que apesar da missão cabocla destinar-se a fazenda de João Goetten Sobrinho, que detinha o monopólio regional na mercância de alimentos e remédios, além de guardar a linha de telégrafo do exército, certamente, após a invasão desta, viriam ataques à outras comunas, o que resultou em uma união de esforços para uma reação, dentre as famílias reunidas.


Deve-se citar com maior destaque, os Collete, principais apoiadores da causa de João Goetten Sobrinho no intento de uma reação, que segundo relatos foi facilitada por um erro estratégico dos jagunços que invadiram a propriedade à noite e dividido em dois grupos, que teriam se confundido com os fazendeiros guerreando contra os próprios companheiros, o que não deprecia a coragem de João Goetten Sobrinho e de seus companheiros.
João Goetten Sobrinho nasceu em 25 de março de 1866 onde hoje é Santa Cecília, e faleceu também aqui, em 17 de julho de1933.

 

 
 

Nas fotos, aparece em dois momentos, à esquerda ainda jovem, e a direita já envelhecido, poucos anos antes de sua morte.

 

Foi a figura mais ativa da participação ceciliense na Guerra do Contestado, homem influente política e economicamente, é uma das figuras mais importantes na história ceciliense, e seu nome batiza a rua da Prefeitura Municipal de Santa Cecília. A invasão ao povoado, ocorreu no dia 29 de setembro de 1913, quando os fanáticos pularam a trincheira de taipa aos fundos da propriedade de João Goetten Sobrinho, e lutaram no escuro com a guarda de João Goetten Sobrinho e Alfredo Collete. 

Quando o sentinela deu o alarme já estavam em plena luta, que segundo relatos do Sr. Alipio Granemann, teria resultado na morte de 14 homens, todos enterrados numa vala comum próxima a atual prefeitura de Santa Cecília, por ordem de Alfredo Collete. Na mesma luta, José Collete teve tirada uma lasca de seu crânio com um golpe de facão, deixando parte de seu cérebro exposto, apenas um exemplo da violência do conflito. 
Outras passagens tratam de várias invasões, nas quais nossa comunidade foi invadida, no entanto, não existem maiores detalhes sobre estes ataques, que eram comuns, e muitas vezes confundidos pela história com os ataques realizados à sede de Curitibanos que abrangia Santa Cecília do Rio Correntes.

Pós-guerra, a Re-colonização

No período pós Guerra do Contestado, dispensa-se comentar a série de fatores negativos que passaram a influenciar a região do planalto-serrano do Estado de Santa Catarina. Atraso, morte, violência, medo e ignorância são algumas heranças daquele hediondo conflito sem causa e, portanto, sem vencedores. Tais reflexos geraram um atraso econômico, cultural e social. Como a região já era influenciada por uma cultura bastante rígida e violenta, a guerra só veio homologar as grandes dificuldades de desenvolvimento que Santa Cecília enfrenta até hoje.

 

 

 

Foto de 20 de janeiro de 1923, no período pós- guerra do Contestado. Em pé: João Frederico Webber, Frederico Karlson, João Goetten Sobrinho, Guilherme Boss, Francisco Arbegaus, e Mathias Hau; Sentados: Guilherme Schleder, Guilherme Goetten, José Goetten Sobrinho, João Farias, Roberto Walter e João Hau.

 

Nos anos 1920 os costumes ainda eram bem voltados a vida do fazendeiro e do tropeiro, um quadro que demorou a mudar. Também neste período os antigos professores volantes da região começaram a ser substituídos por professores fixos, dando origem aos primeiros grupos escolares cecilienses. Dentre os pioneiros na área da educação podemos citar Carlinda Goetten, Lauro Baltazar de Souza, e mais tarde, Cancianila Arbegaus e José Ribeiro Tomaz.
Em 1930 é fundado o "Club 1o de Janeiro", o que demonstra que o povo do lugar já começava a ter vida social mais intensa, buscando não só o trabalho, mas também o entretenimento.

 

 

Clube 1º de Janeiro, fundado em 1930.

 

Da mesma forma, nessa época são dados os primeiros passos do esporte ceciliense, com as disputas de corridas de cavalo, no entanto essas disputas eram pouco organizadas, e feitas num sistema bastante amador, sendo muito apreciadas naquela época, inclusive pelas apostas informais que eram feitas nos competidores. Só mais tarde, nos anos cinquenta é que Santa Cecília passaria a ter outras modalidades esportivas, dando início a uma importante trajetória no setor esportivo que sempre marcou Santa Cecília, especialmente no bolão, no futsal e no automobilismo.  


Ainda nos anos 1930, o Distrito de Santa Cecília do Rio Correntes, deixou de usar o termo  do Rio Correntes , bem como o nome  Corisco também caiu em desuso, pois o povo habituou-se a usar somente o nome  Santa Cecília. Assim, o Decreto Estadual n° 86 de 31 de Março de 1938, elevou o Distrito de Paz para Vila, com o nome de Santa Cecília.

Também nos anos trinta, consolida-se a educação mais formalizada em Santa Cecília, antes praticada somente pelos professores volantes, que peregrinavam pelas fazendas lecionando para os filhos dos fazendeiros, em suas casas. Conforme relato do Manoel Granemann Neto, o primeiro professor volante foi José Chagas, oriundo de Blumenau-SC. Já no início dos anos 1930 teve início a Escola Mista Estadual em Santa Cecília-SC. Na época, uma das primeiras professoras foi a senhora Dejanira Goetten que lecionou por muitos anos. Nesta época, os professores da região eram pagos pelos próprios pais dos alunos, como no caso do professor José Baltazar de Souza, considerado o primeiro professor (homem) do município (região da Coletoria Velha, Campina Beja, etc.)

Posteriormente, outros professores lecionaram na escola, dos quais: Cancianila Arbegaus, Julieta Furtado (irmã do deputado Juarez Furtado, cujo pai Dorvalino Furtado, era cartorário), Olandina Baltazar de Souza e seu esposo Vicente Alves da Silva.

 

No ano de 1958, já transformada em Escola Desdobrada Estadual de Santa Cecília e posteriormente Escola Tresdobrada de Santa Cecília, instalada no sótão do prédio de um clube local denominado Clube 1º de Janeiro, um salão de bailes e festas da Padroeira Santa Cecília. Assumiu a 2ª, 3ª e 4ª séries o jovem professor José Ribeiro Thomaz (na época, por falta de professor, os alunos somente cursavam a primeira série).

 

No anos seguinte, 1959, o estabelecimento escolar foi transformado em Escolas Reunidas, que, em honra a professora Irmã Irene do Grupo Escolar  Arcipreste Paiva de Curitibanos, grande alfabetizadora de alunos, inclusive, do primeiro prefeito de Santa Cecília, senhor Oréstio José de Souza, recebeu o nome de Escolas Reunidas  Irmã Irene , sendo o primeiro diretor o senhor José Ribeiro Thomaz.

A economia do local, inicialmente, baseava-se na agricultura, os colonizadores que aqui se instalaram plantavam para própria subsistência e alguns já comercializavam seus produtos, no entanto, nesta época, o acesso a produtos mais elaborados era extremamente difícil, pois a produção das famílias destinava-se mais ao próprio consumo. Nesta época a região sul do Brasil passou a ser alvo da procura das chamadas madeiras nobres para a indústria moveleira e construção de casas.

*Nos interiores dos municípios da região do Contestado, espalhados pelas zonas rurais, ainda encontram-se pinhais, ervais, imbuias, faxinais e as capoeiras por vários motivos preservados da ação humana,testemunhas restantes da majestosa Floresta Araucária,que tanto pode se instrumentar o cientista que a investiga como inspirar o poeta que a respira. (Tome,Nilson1995,p.32)

Santa Cecília, localizada no meio da floresta araucária, começa seu desenvolvimento econômico baseado nas madeireiras, e sua história, como já dito, está ligada com a abertura do "caminho do sul" ou "estrada da mata",estrada por onde os tropeiros conduziam com suas tropas de muares e bovinos do Rio Grande do Sul a São Paulo.

 

 

 

Muitos imigrantes e seus descendentes do Rio Grande do Sul se interessaram pelo seu potencial florestal e foram aqui se instalando. Motivados pela chegada da BR 2, sucessora da estrada da mata, hoje BR 116,começaram a chegar a Santa Cecília as primeiras indústrias que implantaram suas serrarias e fabricas, era  o período de  re-colonização ceciliense, que trouxe mais algumas família de origem alemã, e uma maior leva de famílias de origem italiana, vindas, especialmente, do Rio Grande do Sul.

 

 

Construção da BR 2 (BR116), em 1948,  baseada no antigo caminho das tropas.

 

A primeira serraria a se instalar no município de Santa Cecília foi à do Sr.Mauro Granemann, instalada na sede do município.
Nesta época de 1940 a 1970, as primeiras indústrias existentes na região e no interior do município eram:

Afonso Ritzmann,que tinha três serrarias;

Malucelli,serraria e fábrica de caixaria;

Ernesto de Lorenzo e Irmão Scariot;

Irmãos Mello;

Ildefonso Mello;

Abrãao Mussi;

Amadeus Pinto;

Irmãos Pereira;

Orestio José de Souza;

Gavazoni e Dorigon;

Alfredo Pigatto e Cia LTDA, onde hoje é a indústria Bonet

Foram essas primeiras madeireiras que deram a Santa Cecília a base da economia do lugar, influenciando decisivamente no seu desenvolvimento.
Foi uma questão de tempo para que Santa Cecília se destacasse no setor, gerando emprego urbano e rural, aumentando a produção e aquecendo sua economia lastreada no setor madeireiro.

Após a segunda guerra mundial 1945 os soldados brasileiros do 2º batalhão ferroviário, assentamento Rio das Pedras com sede em Rio Negro-PR, se instalaram onde hoje conhecemos por Ubatã, no interior da Vila de Santa Cecília, onde ficaram por cerca de 20 anos para a construção da estrada de ferro do chamado  tronco sul do Brasil.

A vila dos Oficias tinha todo o conforto de uma grande cidade: colégio bem moderno, praças de esporte, vila dos oficias, vila dos sargentos e cabos, casa de hóspedes e vila dos civis.

 

 

Ubatã na década de 1950

 

Na rua principal, do outro lado dos trilhos havia barbearia, lanchonete, pousada, lojas, armazéns, alfaiataria e um sobrado que serviria de hotel, salão de costura e modista, mecânica e consertos em geral.

No lado civil a Igreja de Santa Terezinha onde no ano de 1955 concluíram a 1ª Eucaristia 118 crianças.

Com a instalação do exército foi construída uma barragem com fins de geração de energia elétrica, a qual deu origem ao ainda existente alagado do Ubatã, e que foi construída em duas etapas. A 1ª barragem foi feita em 1946, abaixo da atual, mas como não deu o suporte necessário para a água gerar energia, e também, devido à ocorrência de uma enchente que alagou oficinas, garagem e horta, resolveram levantar a segunda barragem em 1950, que ficou onde está atualmente.

 

 

Usina de força do Ubatã, década de 1950

 

Em torno de 100 famílias de empreiteiros que construíram parte da ferrovia moravam na localidade. Nos primeiros anos era usada só mão de obra humana. Homens com picaretas abriam a estrada. A terra e as pedras eram puxadas por animais, e por homens com carrinhos altos de ferro. Depois o exército trouxe tratores de grande porte para a obra.

O responsável pela obra foi o 2º Batalhão Ferroviário de Construção Mauá, na época com sede Rio Negro-PR. Instalada no Ubatã, próximo ao Rio das Pedras, onde já atuavam muitas madeireiras, entre elas: Pigato, Gavasoni, Picolotto, Scariot e Serraria do Exército.

Já no centro da vila de Santa Cecília, onde hoje repousa a cidade, os anos quarenta e cinquenta consolidaram a indústria madeireira local. A pecuária se expandiu muito lentamente, mas também abriu possibilidades de crescimento, e por muito tempo teve influencia na economia local.

Neste período a vila passa a se estruturar urbanisticamente, com o auxílio indispensável da Igreja Católica, que ajudou a instituir melhores condições sociais à Vila de Santa Cecília, especialmente nos campos da educação e da saúde, através do brilhante trabalho das Irmãs de Sion, que atuaram de maneira fundamental nos trabalhos assistenciais, e na criação do Hospital de Santa Cecília.

 

 

Grupo de Irmãs na década de 1950.


A estrutura econômica e social do lugar já permitia que Santa Cecília se tornasse município.

 

Município de Santa Cecília

Em 21 de junho de 1958, pela lei estadual 348 (veja a Lei na íntegra a seguir), Santa Cecília foi elevada à categoria de município, o qual teve sua instalação em 05 de agosto do mesmo ano.

Em 28 de junho de 1966 deu-se a instalação da Comarca de Santa Cecília, a qual tinha como sua jurisdição também os municípios de Fraiburgo e Lebon Régis, comunidades que hoje possuem suas próprias Comarcas. Durante os anos 60, logo após a emancipação do município, a economia extrativista madeireira aqueceu-se ainda mais e atingiu seu ápice. As densas florestas de araucária foram sendo derrubadas de forma desenfreada, a madeira de excelente qualidade, vendida a preços muito baixos, aliada a imensa quantidade de pinhais no município, impulsionaram um aquecimento econômico, que refletiu no num leve crescimento comercial e populacional no município de Santa Cecília-SC.

 

 

Foto aérea de Santa Cecília em 1964.

 

Mesmo com a extração madeireira no seu auge, a mão de obra sempre foi muito barata em Santa Cecília, o pouco investimento na transformação da madeira, manteve a mão de obra desqualificada, o que estacionou o desenvolvimento e limitou o município em vários segmentos, como a demanda de serviços, o comércio e principalmente no desenvolvimento cultural do povo, que mesmo assim buscava intensificar sua vida social, especialmente nas festas e no início das atividades esportivas.

Ainda na década de 1950, surge a primeira tendência de se organizar alguma atividade esportiva com mais estrutura, quando foi fundado o time de futebol "7 de Setembro". O "7 de Setembro" realizava jogos amistosos internos e regionais, sendo o primeiro time organizado  em uma modalidade esportiva na história ceciliense. O "7 de setembro" tinha o uniforme em branco e preto com uma faixa diagonal, lembrando a camisa do Vasco da Gama do Rio de Janeiro. A equipe mantinha seu campo de treinamento em frente a atual Industria "Bonet Madeiras e Papéis Ltda" sendo coordenado pelo Sr. Adolfo Correia da Silva, que organizou e fundou o time juntamente com o Sr. José Flavio Franzon. Com o passar do tempo, na década de 1960 o "7 de Setembro" tornou-se o "Pinheiros Esporte Clube", que também era mantido e coordenado por Adolfo Correia da Silva e José Flavio Franzon, e recebia apoio material do Dr. René Emílio Mujica Martinez, que também era preparador físico do time.

 

 
Pinheiros Esporte Clube. Em pé: Adolfo Correia da Silva, Zélabanca, Celso Granemann Andrade (vereador), Lili, Luiz Allage, Nêgo Osmar, Bodão, Miguel Batista, Borracha e José Flávio Franzon; Agachados: Pinguinzinho, Samuel, Formento, Medonho, Delton Allage e Nilton. (Campo do Pinheiros - 1972).(foto doada por Mario Augusto dos Santos - acervo pessoal).

 

 

O Pinheiros consolidou-se como o mais tradicional time de futebol Santa Cecília, com uma estrutura de instalação que foi conseguida e doada para o clube, o mesmo tornou-se sociedade, situada no local popularmente conhecido como campinho do Bonet, tendo inclusive um salão de festas da sociedade Pinheiros, hoje conhecido como "Pinheirão", onde aconteceram grandes eventos sociais da cidade e onde muitas festas foram organizadas para manter o clube.

O "Pinheiros" fez grandes campanhas em torneios regionais, ganhando alguns deles, tendo sempre bem representado Santa Cecília.
Paralelamente ao "Pinheiros", de maneira mais informal, surgiu o clube "Veteranos" que também era mesclado com alguns jogadores do "Pinheiros" e algumas vezes representou Santa Cecília em torneios intermunicipais, tendo inclusive feito uma gloriosa campanha em nível estadual, onde de 38 jogos, venceu 36, e empatou 2, um deles com o Clube Internacional de Lages, na época um dos times de maior expressão no Estado de Santa Catarina.

Na década de 1970 o "Veteranos" conquistou um título micro-regional em Curitibanos-SC, e desfez-se em seguida.  
Também na metade da década de 1970, com problemas e dificuldades de administração, o clube "Pinheiros" desfez-se, mas deixou um marco na história do esporte ceciliense, tendo sido a primeira entidade esportiva realmente organizada no município.

Passada a fase dos times pioneiros, algum tempo se passou sem que o futebol ceciliense tivesse uma boa organização, tendo apenas formações denominadas "Santa Cecília", que algumas vezes representaram a cidade, em especial pela inauguração do Estádio Jovelino Bonet, no ano de 1986 em que "Santa Cecília" perdeu o jogo inaugural por 4X1 para o "BEC" Blumenau Esporte Clube.

 

 

Estádio Municipal de Santa Cecília - Jovelino A. Bonet - 1986. (foto cedida por Walmor A. Ely - acervo pessoal).

 

Em 1992 uma nova tentativa de profissionalizar o futebol local com a contratação de Atletas de outras partes do Brasil, fez nascer o "Santa Cecília Futebol Clube", que trouxe bons jogos para a cidade, mas sem resultados efetivos, o que fez o clube, mantido com recursos públicos, falir em pouco tempo.
Somente próximo a 2004 ressurgiu o futebol ceciliense, no entanto com representações modestas em nível regional, e com a organização de vários times no bom campeonato municipal, em franca ascensão.

*As décadas de 1960 e 1970 foram recheadas de transformações culturais que aceleraram as mudanças de hábitos e inter-relações das famílias cecilienses. Sabe-se que antes da propagação dos meios de comunicação de massa, as ideologias, os hábitos e culturas populares eram preservados por um longo espaço de tempo. Deste modo, o imaginário popular veio a sofrer diversas intervenções proporcionando uma surta aculturação, mediante ao contexto histórico entre conflitos ideológicos. No apagar das luzes da década 1960 configuraram-se algumas festas típicas da região. Importa ressaltar que o surgimento desses bailes se dá através da atuação direta de instituições religiosas e do organismo público, ou quando muito, pelo esforço único e exclusivo do povo. "As festas aconteciam em clubes e eram organizadas pelas famílias da comunidade, salão de igrejas etc".

Deve-se considerar que as festas eram seguidas de eventos paralelos como: missas, leilões, carreiras ou brigas de galos. As festas onde praticavam rinhas de galos, geralmente eram animadas por músicos ao vivo, populares violeiros que se apresentavam na abertura do evento e no final, onde celebravam a vitória triunfal dum determinado galo que assistia seu adversário sendo jantado pelos realizadores da rinha.
Já as festas que acompanhavam as carreiras (ou corridas de cavalos), comumente eram animadas por uma culinária bastante típica: Churrasco, pão e maionese. Geralmente, as carreiras duravam um dia inteiro, fazendo com que o povo almoçasse por entre árvores muitas vezes sentados na grama ou em bancos improvisados.

Importa frisar que as carreiras eram uma prática popular decorrida da necessidade de convívio entre os moradores e da sua própria maneira de produzir. Geralmente, os espectadores deste evento eram pessoas ligadas ao campo, agricultores que residiam nos interiores próximos. O próprio contexto produtivo dessas famílias proporcionou-lhes substâncias para promoverem esses tipos de práticas.

*(Monografia de conclusão de Curso de História - José Jacó Moreira dos Santos, Santa Cecília, 2006).

Entre o final da década de 1950 e início da de 1960, outra modalidade esportiva ajudaria a alicerçar o desenvolvimento esportivo e cultural em Santa Cecília, o bolão.

A primeira cancha de bolão da cidade foi instalada pelo Sr. Francisco de Assis de Paula Goetten, em seu bar, próximo a Escola Irmã Irene, ainda no final da década de 1950, tendo surgido mais como uma atividade de lazer, pois, como dito, estava instalada dentro de um bar. As mesmas instalações foram adquiridas pouco tempo depois por Aristides de Oliveira (Badanha), que construiu a segunda cancha. Já nos anos 1960, o Sr. Amadeu Padilha adquiriu as instalações, e por fim o Sr. Aroni Granemann foi o proprietário do bar que abrigava as canchas. Os primeiros jogadores começaram de maneira informal, no entanto deram fundamental contribuição para que a modalidade esportiva fosse ganhando espaço e acabasse por influenciar a cultura esportiva na cidade de Santa Cecília.

 

 

Dentre alguns dos pioneiros jogadores podemos citar Ari Prandi, Claudino Ceolla, Nilton Coning e Nildo Allage.

 

Nos anos 1970 a modalidade perdeu força e só ressurgiu no início dos anos 1980, quando foi construída a primeira cancha pública do município, voltada para a prática mais estruturada do bolão.

Graças a esta estrutura e ao esforço de algumas pessoas que tentaram dar um caráter mais profissionalizado e motivaram a prática do esporte na cidade, o bolão ressurgiu com força.

Dentre essas pessoas destacamos o Sr. Everaldo Lucas e Ari Prandi, que juntamente com outros praticantes do esporte criaram uma forte representação ceciliense no bolão, inicialmente com disputas internas e depois com representação em alguns torneios regionais e intermunicipais.
Destacamos entre os principais jogadores e difusores do bolão ceciliense os seguintes nomes:

Manuel dos Santos, Ataíde (Cachoeira), Manoel Ivan Valin, Samuel Arbegaus, Airton José Gaudêncio (Ito), Ademir Granemann de Souza, Claudino Ceolla, Vilson Almeida, Nildo Allage, Nilton Coning, Ari Prandi e José Cinval(gaúcho).

Na mesma época, internamente, criou-se o SERESTA, equipe de bolão que representou Santa Cecília em vários torneios intermunicipais, tendo feito brilhantes campanhas. Em nível municipal, os jogadores citados acima, deram à Santa Cecília forte tradição na modalidade bolão, sendo os responsáveis pela permanência da prática desse esporte até os dias atuais em Santa Cecília.

Além da contribuição ao esporte ceciliense, essas pessoas levaram o nome de Santa Cecília para todo o estado de Santa Catarina, sendo que a equipe ceciliense sagrou-se campeã de vários torneios regionais e do campeonato catarinense de bolão na classe Taça de Prata, sem contar as boas campanhas na Taça de Ouro, principal categoria estadual do esporte. 

Considerando que o futebol e o bolão foram as modalidades que rascunharam a prática esportiva organizada em Santa Cecília, devemos apontar que o esporte passou a ter maior espaço em Santa Cecília na década de 1960, quando as escolas passaram a difundir com maior intensidade o próprio Futebol, o Vôlei e o Futsal, o que também ajudou a incentivar a prática de esportes, informalmente, entre os jovens da cidade.

 

 

Foto: Grêmio Estudantil Futebol Clube. Em pé: Touro, Corino, Amadeus, Hélio Metz, e Osni Grimes. Agachados: Tadeu, Pelé, Delton, Eduardo Partika e Bira - 1968.(foto doada por Mario Augusto dos Santos - acervo pessoal).

 

 

Foto: Equipe campeã de Vôlei na Escola Irmã Irene, no ano de 1969. Em pé: Daniel Alves de Lima, Antonio Granato, José Eloi Goetten, Osmar Alves de Lima, sentados: Moacir Roberto Auersvald, Samuel Arbegaus, Odir Medeiros e Luiz Fernando Zolet. (foto doada por Samuel Arbegaus - acervo pessoal).

 

 

Time de Vôlei. Em pé: Moacir Gaudêncio, Paulo Scariot e Aldivar Goetten(Adival). Agachados: Miro, Cirica e José Eloí.
(foto doada por Samuel Arbegaus - acervo pessoal).


Também na década de 1960 nascia à representação ceciliense no esporte que anos mais tarde seria sua marca registrada, o automobilismo. Aldo Leal Tramontini foi o precursor do automobilismo ceciliense, respeitado e reconhecido em nível estadual.
Aldo representava Santa Cecília em corridas em pistas de terra, ocorridas pelo interior do estado, correndo nas categorias DKW nos anos 1960 e Corcel nos anos 1970.

Um apaixonado por velocidade Aldo foi o principal motivador e idealizador da vinda do automobilismo para Santa Cecília através da construção de um autódromo com pista de Terra que pudesse fazer de Santa Cecília uma boa casa para o automobilismo.

 

 
 

DKW com o qual Aldo defendeu Santa Cecília.(foto doada por Mario Augusto dos Santos - acervo pessoal);  Aldo Leal Tramontini na pista do autódromo municipal que hoje leva seu nome - 1985. (foto cedida por Walmor A. Ely - acervo pessoal).


*Na década de 1970 também eram comuns algumas gincanas organizadas pelos jovens onde juntavam roupas e alimentos que mais tarde eram distribuídos para os mais necessitados. Nestas gincanas, cada equipe pintava um carro no qual a representaria numa corrida frenética e "bastante divertida" como descreveu Josani M. Grochovski de Souza.


O município nesta época havia emancipado-se há mais de uma década, logo seu território era bastante longo e o centro apresentava-se ainda ralo, com algumas poucas casas distribuídas pelos recentes bairros. Na Páscoa e Natal administração organizava alguns enfeites que marcaram a infância de muitos moradores. Próximo à BR 116, rodovia que corta o município, eram construídos alguns símbolos de estórias infantis como a carruagem da Cinderella ou o Trenó do Papai Noel entre outras.


Há ainda alguns depoimentos sobre festas que eram organizadas nas próprias residências. Nesse caso, muitos ajudavam na realização do evento até mesmo crianças e adolescentes.


É notável que mesmo por entre as densas entranhas do interior do município haviam pequenas igrejas das quais atendiam a uma estratégica região. Praticamente todas as festas haviam de ter uma missa pela manhã, antes da Matiné dançante. Nestes interiores surgiu uma prática realmente importante chamada popularmente "pixirum", como descreve uma das moradoras: "As festas eram sempre acompanhadas de missa, após churrascos, bebidas, matinés, pixuruns (ajudatórios) trabalhavam na roça e a noite baile".


Nesses chamados Pixiruns, o povo vizinho reunia-se numa empreitada de dois ou três dias e uma multidão de trabalhadores executavam um trabalho agrícola que duraria semanas. As vezes algumas das pessoas que participavam desse trabalho nem sequer tomavam banho ou trocavam de roupas para o baile, dado que a prioridade para a concessão de danças das moças era dos que haviam trabalhado no pixurum. Os pais comumente orientavam suas filhas para nunca recusar uma dança, visto que representaria uma ofensa à moral imaginária do pixirum.

 

 

Foto de músicos na véspera de um baile pixirum em 1972.

 

Dos movimentos descritos, entende-se que apresentam-se como manifestações da cultura popular de Santa Cecília produzidas pela atuação do próprio contexto em que surgiram. Estas práticas populares são as mais utilizadas entre a década de 1960 e 1970 pelos cecilienses. É exatamente na segunda metade da década de 1970 que a cultura de massa começa a invadir o cotidiano das famílias, e o urbano passa a se tornar moda, bem como o rádio, a Televisão e os jornais. A partir daí o popular não sobrevive se não se transformar numa mercadoria rentável.

Sabemos que a economia do município gira em torno do extrativismo. Sabemos sobretudo que assim como no resto do país aqui há a propriedade privada e a necessidade de mão de obra barata para os serviços em serrarias, laminadoras etc. É do imaginário Seiscentista, pensar que as moças deviam achar rapazes de família, moços que tenham adquirido uma boa formação de seus pais. Era necessário, neste contexto, que as moças namorassem o estereótipo do homem trabalhador, conquistador de seus bens privados com suor de seu próprio labor. Para que isso ocorresse, a família havia de ser exemplo de bons costumes zelando pela integridade sexual da moça. Desta maneira, entre 1960 e 1970, era necessário alguns ritos para o namoro.
Importa lembrar que as crianças desde cedo começavam a trabalhar, pois a infância era tida como uma fase de aprendizado, de condicionamento, de introdução do indivíduo no sistema.

Iniciam as difusões de TV a cores no planeta, e no Brasil é implantada a Rede Globo. A televisão transforma-se em meio de comunicação em massa popularizando os telejornais e telenovelas. O Brasil sofre profundas investidas norte americana na economia e sobretudo, em produtos culturais tais como o cinema, música e produtos comuns, enrustidos em propagandas milionárias e criativas, ou as influências dos estilos Hippies, Dance etc. É aí que publicidade começa a ganhar importância.

Comumente no Brasil, os movimentos, idéias que realmente transformaram os processos de vida do brasileiro sempre eclodiram gradualmente. Porém, importa lembrar que a televisão e rádio não tardaram aparecer por entre as entranhas brasileiras. Isso decorre do contexto social onde a guerra fria se fez fervente, pois era necessário ampliar os meios de comunicação onde havia ameaças de revolução "comunista", como o caso do Brasil. É comum entre os depoimentos dos moradores de Santa Cecília, encontrar os nomes: Hermes Bonet, Ari Bonet, Adolfo Correia da Silva, Família Allage e Franzon como sendo os primeiros a obter aparelhos eletrônicos como televisão e rádio. Vejamos um dos relatos selecionados:
Nas localidades satélites do município onde se habituou chamar de interior, as famílias costumavam reunir-se no vizinho que possuía aparelhos como televisão e rádio para deliciar-se com o espetáculo que emergia daquela pequena caixa com face de vidro.

Neste período, popularizaram-se programas de auditório como Chacrinha e Sílvio Santos. Havia festivais da canção de onde saiam os novos sucessos do momento. É aí que o regional vai perecendo sob a mão possessa da massificação da música, hábitos etc. Assistir Televisão e agir como os personagens, viver um grande romance ou aventura passava a ser sinônimo de "ser chique".

Curioso é o efeito que os heróis do cinema causam nas pessoas. Percebe-se que nas décadas de 1960 e 1970 nas escolas Cecilienses ainda se estudava o Francês e Italiano como segunda língua, porém, após uma súbita reforma educacional o inglês passou substituir as duas línguas latinas. Vários verbetes, nomes de marcas e gírias começaram a compor o vocabulário do município.

Os movimentos Hippie e Discoteca chegaram finalmente no Brasil e mesmo que de forma indireta contribuíram para introdução da cultura Norte Americana nos grandes centros, mas não tardaram enveredar também pelos interiores brasileiros. Enfim, é visível a substituição da cultura popular pela cultura de massa, o cidadão se faz indivíduo consumidor de cultura e está sob orientação das súbitas transformações de hábitos, modas etc.
*(Monografia de conclusão de curso de História José Jacó Moreira dos Santos, Santa Cecília, 2006).

A concentração de renda sempre limitou o crescimento do município, pois sua economia sempre dependeu diretamente dos menos favorecidos, assim, a partir dos anos 70, o comércio interno foi a base do próprio desenvolvimento, que mesmo constante, é até hoje, muito lento, só tendo crescido graças ao aumento natural da população, no entanto o segmento madeireiro, que ainda é a base econômica do município, segue o mesmo princípio da mão de obra baixa e do grande volume de venda, em especial para exportação, o que mantém o crescimento do município em um ritmo abaixo do próprio potencial.
Esta questão do desenvolvimento lento, que sempre foi motivado pela limitação da indústria madeireira ceciliense, influenciou não só a questão econômica, mas em todos os fatores, inclusive culturais, pois a mão de obra barata, gerou menor renda, menor poder de compra, menor nível dos serviços, menor conhecimento, enfim, freou o progresso de uma maneira geral, assim foi nos anos 1970, 80, 90 e 2000.

Outro importante passo na história ceciliense, no campo do esporte, foi a criação da Comissão Municipal de Esportes - CME. A CME Santa Cecília foi criada em 1972, graças ao esforço de pessoas como o Sr. Wilson Domingues da Silva, principal responsável pela criação da CME. Além da CME, o visionário Sr. Wilson teve fundamental participação na criação dos símbolos municipais de Santa Cecília. Coincidindo com a criação da CME, no ano de 1972, outra modalidade esportiva passou a ter espaço e a ganhar o status de uma das principais práticas esportivas da cidade de Santa Cecília, o Futsal.

No ano de 1973 Santa Cecília teve a primeira representação no Futsal, que já começou com a responsabilidade de defender o nome da cidade no JASC - Jogos Abertos de Santa Catarina, realizado, naquele ano, na cidade de São Bento do Sul. A boa participação do nosso Futsal naqueles jogos é digna de memória. O time tinha Serginho (Mario Sergio Martins dos Santos), Luizão (Luiz Allage), Samuel (Arbegaus), Bira (Ubiratan Bombílio), Eloi (Trancoso) e Soldado Brasil. 

Com o tempo o Futsal foi ganhando força em Santa Cecília, especialmente na década de 1980, quando surgiram ótimos times formados na cidade, tais como o "Guarani FC" e o "Esparança FC", times que se destacaram municipalmente e regionalmente, estimulando o Futsal em Santa Cecília, modalidade esportiva fortemente presente na cultura ceciliense, ainda sendo o esporte coletivo mais praticado na cidade nos dias atuais.

 

 
 

Guarani FC": Em pé: Vilson(tec.), Jacu, Amazonas, Paulinho, Ede e Garia.
Agachados: Saulo, Argeu, Reinaldo e Carlinho - 1984 (foto doada por Mario Augusto dos Santos - acervo pessoal).
"Esperança FC": Em pé: Ascendor, Paulo, Mito, Ede, Régis e Vilson(tec.).
Agachados: Argeu, Neco, Polenta e Saulinho.

 

O esporte era apenas um indicativo que os anos 80 estavam sendo muito importantes para a cidade, pois nesta década, além de firmar sua identidade, a cidade se estruturou urbanisticamente, com um projeto de crescimento, e muito do que foi feito naquela época persiste até hoje como fatores estruturais importantes no desenvolvimento da cidade.

Em 17 de março de 1985 as 18h00h entrava no ar a mais nova emissora da região Rádio Alvorada de Santa Cecília Ltda operando na freqüência de 1550 kwtz inicialmente com 250 watts de potencia e após 90 dias operando com 1000 watts em tua força total.

Ainda na década de 1980 Santa Cecília passa a ser conhecida como Capital Catarinense do Automobilismo, graças as corridas em pista de terra, realizadas no autódromo municipal Aldo Leal Tramontini, ainda hoje, incomparável, sendo o melhor do estado de Santa Catarina em pista de terra, não só pelo belo e desafiador traçado da pista, mas também pela estrutura de arquibancadas, visão geral da pista, e área de camping, além da facilidade de acesso, o que atraiu visitantes do estado inteiro e até mesmo de outros pontos do país, gerando aquele que pode ser considerado o ápice do turismo em Santa Cecília, de forma que nunca se recebeu tantos visitantes de outros lugares como naquela época.

 

 

Foto aérea do autódromo Aldo Leal Tramontini.

 

Santa Cecília foi bem representada, no automobilismo catarinense dos anos 1980, com pilotos que se destacaram, sendo que dois deles conquistaram o título de campeão estadual na categoria 1600CC, Paulo Cezar Ely, em 1986, e Roberto Granemann(Touro), em 1987, além de Wilson Goetten Primo, que também representou a cidade em algumas corridas, Luiz Carlos Pruner que também defendeu Santa Cecília correndo com o Opala 43 da equipe "Bonplac", e o supercampeão Roberto Pruner, de Balneário Camboriú, que conquistou nove campeonatos e um vice-campeonato representando Santa Cecília com a equipe "Bonplac" do lendário Opala verde e branco, número 34.

 

 

Brasília 34 pilotada por Roberto Granemann (Touro) - (foto retirada do blog poeira na veia (www.poeiranaveia. blogspot.com).

 

 

Voyage 12 pilotado por Wilson Goetten Primo - 1985. (foto cedida por Walmor A. Ely - acervo pessoal).

 

 

Fusca 34 pilotado por Roberto Granemann (Touro) - 1985. (foto cedida por Walmor A. Ely - acervo pessoal).

 

 

Fusca 33 pilotado por Paulo César Ely - 1985. (foto cedida por Walmor A. Ely - acervo pessoal).

 

 

Opala 43 pilotado por Luiz Carlos Pruner (Caco) década de 1980 (foto doada por Mario Augusto dos Santos - acervo pessoal).

 

 

O lendário Opala 34 da Bonplac, que fez história em toda Santa Catarina, pilotado por Roberto Pruner - 1985.

 

Durante o período que defendeu a Equipe Bonplac, de Santa Cecília, entre 1983 e 1992, Roberto Pruner conquistou 4 títulos de Campeão Catarinense de Stock Car na Terra, 2 títulos de Campeão Paranaense de Stock Car (1 na Terra e outro no Asfalto), 1 título de Campeão do Interestadual PR / SC de Stock Car na Terra e mais um título de Vice-Campeão Catarinense de Stock Car.

Todo esse fantástico retrospecto faz de Santa Cecília um ícone no que se refere a história do automobilismo catarinense, levando seu nome a todo o estado e até ao Brasil.

Em 26 de abril de 1989, Santa Cecília tem parte de seu território desmembrado, dando origem ao Município de Timbó Grande, o qual era distrito de Santa Cecília desde a edição da Lei nº. 822 de 07 de maio de 1962, que aprovou a resolução nº. 031/62 pela Câmara de vereadores de Santa Cecília.
O Governador em exercício Sr. Casildo Maldaner sancionou a Lei nº. 7581 no dia 26/04/1989, a qual criou o Município de Timbó Grande, instalado oficialmente em 1º de Janeiro de 1990.

 

 

 

O município de Santa Cecília passou entre a década de 90 e 2000, por um período conturbado, em que o crescimento industrial contrastou com um crescimento desordenado da cidade, que bem delineou a diferença social e todos os reflexos negativos disso. Ao mesmo tempo que a indústria recebia investimentos de fora do município, os desmandos de gestão pública pioraram a condição dos menos favorecidos, o que influenciou muito negativamente nos passos lentos em que o município cresce.

Nos dias atuais as dificuldades que o município ainda encontra são imensas, mas contra tudo e todos, a luta e a história continuam.
Em 21 de junho de 2008 Santa Cecília completou 50 anos de emancipação político administrativa, sem dúvida uma marca a ser comemorada, pois para ser o que é hoje, o município passou por intempéries piores que o frio impiedoso ou os raios dos campos do Corisco.
Invasões, ganância, esquecimento, guerra, falsos monges milagreiros de ontem e de hoje, fanáticos ignorantes e preguiçosos de ontem e de hoje, orgulho, corrupção, falta de respeito, enfim, muitas são as máculas da nossa história, que mesmo assim, graças ao povo ceciliense, continua sendo escrita com a esperança sempre renovada, a fé num futuro de progresso e a força infinita pela sobrevivência e superação que sempre marcou essa terra.

 

 

 

Se ainda não somos uma hoje uma cidade ideal, a história responde o porquê e nos dá o compasso para um futuro diferente.
A persistência, a força e a vontade daqueles que verdadeiramente amam essa pequena cidade fria, no alto da serra, com seu trabalho e dedicação, alimentam a esperança de sermos melhores a cada dia. Se não fosse possível mudar, já teríamos desistido, e não teríamos sequer uma linha de história para contar.

 

Pesquisa e texto : Diego Rogério Goetten.

 

 

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